Num calor tórrido, enganou-se nas sapatilhas. Alterou-se o plano. A viagem fez-se antes. Até à anima sana in corpore sano não se chega pelo caminho mais curto. Acaba-se numa zona de blocos industriais e residencias abandonados, ladeados por casinhas de lata. Por fim, o muro amarelo e a ponte gigante, o lugar do arco lá ao fundo.
Fala-se de férias e de excessos de zelo. A escolha é óbvia e para ser imediatamente testada, devorada, glorificada. Numa brasa de meia noite, a dôr, a fraqueza a sair do corpo custa. Mas a recompensa é estranha e sublime. Leve como uma pluma, estável como um cometa.
Noutro serão, um nevoeiro quente embateu-se sobre o Tejo e a nova velocidade deixa os perfumes e saltos altos desconfortáveis a deslocar-se a ritmo aborrecido de caracol. O objectivo é distância irrespectivamente da velocidade. Para além das matilhas ocasionais de ciclistas-coruja, e tendo em conta a grande quantidade de gente que por ali vive, há poucos que disfrutam daquele lugar óbvio. Os que o fazem paracem casais distraídos.
Numa outra manhã o caminho é ocasionalmente perfeito. E um futuro ideal imaginado cumprimenta-nos no caminho. A rua é o nosso ginásio.
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14/07/2013
28/02/2013
Camadas de lã
Duas senhoras fortes e fofinhas com camadas de lã e, a mais nova, talvez a filha, de calças justas de ganga, aguardam sentadas. C217, balcão quatro. A mais velha abraça-se às suas muletas e a mais nova lê carinhosamente as pequenas folhas da revista Maria.
Ela mexe os lábios em silêncio, ao ritmo das palavras. Às vezes ela surpreende quem se senta ao seu lado com um ou outro som. C220, balcão quatro, uma multidão bate palmas na televisão silenciosa e suspensa. Com o burburinho das vozes e do esperar como ruído de fundo, a vizinha, surpreendida, torna-se amiga.
Ela mexe os lábios em silêncio, ao ritmo das palavras. Às vezes ela surpreende quem se senta ao seu lado com um ou outro som. C220, balcão quatro, uma multidão bate palmas na televisão silenciosa e suspensa. Com o burburinho das vozes e do esperar como ruído de fundo, a vizinha, surpreendida, torna-se amiga.
10/02/2013
Jogging hospitalar
Foi correr num dia de Inverno sem chuva. Com gorro, envelope, papel, moeda e cartão na mão. Da casa até ao hospital, passa-se no cemitério - pausa-se num canto de pedras frias e pacíficas - e os carros são poucos e as pessoas também. A enorme cascata pré-fabricada que leva até à entrada do centro hospitalar tem água parada bolorenta e o grande largo redondo coberto de pastilhas não tem água.As pessoas entram e saem devagar. Paga-se nas urgências não no hall principal. Não são dois euros mas sim quatro euros porque foram duas radiografias. A maquineta multibanco do Millennium BCP dá erro. Duas radiografias custam quatro euros. "Boa tarde, obrigado e bom trabalho". Nem os olhos se levantam, nem a boca se move. Passa-se rápido pelos corpos preocupados e doentes e depois é correr e correr.
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