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19/07/2014

Memorial do Convento

José Saramago, Editorial Caminho, 1984; 2004 34a edição

Alegoria do agora no passado. Tragédia de todos os que perseguem o vão sonho de voar. Tragédia mesmo a voar, porque Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis, tendo voado um com o outro, são agrilhoados ao Convento de Mafra por uma sociedade 'superior' que vive à custa das massas condenadas ao sacrifício. São presos ao chão e eventualmente queimados na fogueira pelo preconceito e hipocrisia de uma infeliz e vazia elite.

27 Mas esta cidade, mais que todas, é uma boca que mastiga de sobejo para um lado e de escasso para o outro.

42 À porta duma taberna que ficava ao lado da casa dos diamantes, Baltazar comprou três sardinhas assadas, que, sobre a indispensável fatia de pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto caminhava em direcção ao Terreiro do Paço. Entrou no açougue que dava para a praça, a regalar a vista sôfrega nas grandes peças de carne, nos bois e porcos abertos, quartos inteiros pendurados dos ganchos. A si próprio prometeu um festim de viandas quando lhe desse o dinheiro para isso.

141 Não choveu todo o caminho. Só o grande tecto escuro que se alongara para o sul e pairava sobre Lisboa, raso como as colinas no horizonte, parecia que se levantando a mão se tocaria na primeira flôr da água, às vezes é a natureza boa companhia, vai o homem, vai a mulher, as nuvens a dizerem umas às outras, A ver se eles chegam a casa, depois já poderemos chover. Entraram Baltasar e Blimunda na quinta, na abegoaria, e enfim começou a chuva a cair, e como havia algumas telhas partidas, a àgua escorria em fio por ali, discretamente, apenas murmurando, Cá estou, chegaram bem.

143 em menos de uma semana deixou a máquina de ser máquina ou seu projecto, quanto ali se mostrava poderia servir para mil diferentes coisas, não são muitas as matérias de que os homens se servem, tudo vai é da maneira de as compor, ordenar, juntar, veja-se a enxada, veja-se a plaina, um tanto de ferro, um tanto de madeira, e o que faz aquela, esta não faz

162 muito verdade é o que se diz, pequenas causas, grandes efeitos, por nascer uma criança em Lisboa levanta-se em Mafra um montanhão de pedra e vem de Londres contratado Domenico Scarlatti

171 Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei que aqui estivesse faria o mesmo, é por pequenas coisas assim que se vê serem os homens realmente iguais

230 Medita D. João V no que fará a tão grandes somas de dinheiro. De Portugal não se requeria mais que pedra, tijolo e lenha para queimar, e homens para a força bruta, ciência pouca.

231 Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira pedra da Basílica, essa de Pêro Pinheiro graças a Deus, tudo quanto é Europa vira consoladamente a lembrança para nós, para o dinheiro que receberam adiantado (...)
Se a vaca que tão dócil se deixa mungir não puder ser nossa, ou enquanto nossa não puder vir a ser, ao menos deixá-la ficar com os portugueses, que em pouco tempo estarão a comprar-nos, fiado, um quartilho de leite para fazerem farófias e papos-de-anjo.

251 Se a vida não tivesse tão boas coisas como romer e descansar, não valia a pena construir conventos

261 Em cima deste valado, está o diabo assistindo, pasmando da sua própria inocência e misericórdia por nunca ter imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno.

285 Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não faltam isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade.



24/07/2011

José e Pilar


Miguel Gonçalves Mendes, 2010

Transparente registo íntimo dos pequenos nadas deste forte e intenso casal. Pilar, fervilhosa, mandona. Saramago ácido e insistentemente jocoso. Eles abrem as portas aos objectos e rotinas diários intercalados por alucinantes roadshows  de palestras, apresentações e entrevistas à volta do mundo. Bem gizado.

23/05/2009

A Viagem do Elefante


José Saramago
Caminho, 2008

É uma viagem de Lisboa a Vienna calma e bonita na sua simplicidade. Leva-nos através de lugares e personagens fascinantes do Portugal e Europa do tempo de D.Joao III, no século XVI. Pelo caminho fica um exemplo peculiar da teimosia valente dos soldados Portugueses, um curioso milagre revelador da turbulência religiosa dessa altura, uma viagem de barco, um salvamento na neve e, acima de tudo, Subhro, a personagem do Cornaca. A alma, olhos e coraçao do elefante Salomao.