09/04/2008
Já há muitos anos que não vivia tanto tempo em Viseu. A cidade aparece nestes dias molhada, cinzenta mas, ainda assim, invariavelmente acolhedora e minha. São espaços familiares, orgânicos para mim ao extremo. Quando por aqui estou recebo implantes biónicos para os meus cinco sentidos. É como eu passasse a ver por intermédio do meu jardim, ouvir pelos saltos que dou entre as 4 pedras da Praça de Goa, a falar com o bater da porta ôca de madeira da cozinha, a cheirar graças ao mofo mais querido do meu sótão e a tactear o mundo pelas patas do Mateus. Sou este lugar e este lugar sou eu.
24/03/2008
23/03/2008
Preciso de dactilografar 100 páginas em 100 dias... Gostava de dactilografar 100 páginas em 100 dias. É assim pelo menos que organizo estas coisas nos meus pensamentos. Este desejo é talvez pouco mais que uma pretensão de organização, ainda assim é um pretensão importante, uma que cada vez mais sinto necessária. Os meus momentos pautados do Deus das pequenas coisas giram muito em torno desta ambição, por ela se medem. Todos precisamos de guias, para tudo, sejam estas mais ou menos abstractas, é sem dúvida a intensidade dos nossos objectivos que define a qualidade dos nossos gestos.
22/03/2008

Olha aqui um pássaro. Está aqui um pássaro agora... ai que disparate. Olha, acabaram-se as bolas. Ah! Vou no 6-7, e tu em qual vais? O que é que isto quer dizer : "new store item unlocked"? Então e agora, ok, pronto. Ai isto anuncia? Ah, já andei mais um andar. Gosto muito desta parte onde saltam os pauzitos todos. Falta muito à minha pirâmide...olha, olha, tanta estrelinha.
Luxor 3 - Jogar para perceber.
20/03/2008


Houve um por-do-sol vermelho e bonito na figueira este dia 20. Um passeio no passadiço de madeira foi obrigatório. No meio das conversas vim a saber que antes do Panteão estava no seu lugar a igreja de Santa Engrácia. Reza a história que problemas logísticos na construção e fragilidade estrutural submeteram a igreja a constante vandalismo e veio a dar origem à expressão "estas obras estão a demorar como as obras de Santa Engrácia". Que, tal como no Mosteiro dos Jerónimos, também há um jazigo do Luís Vaz nesse mesmo Panteão, apesar de vazio e que ao pé de Espinho cultivam cenouras, hortaliças e batatas na areia da praia, muito saborosas e famosas por sinal.
De todos os males e dedos a apontar às especulações do senhor Berardo, o valor da sua colecção de arte é inquestionável. A escolher, gamava-lhe o Lichtenstein e o Mondrian, sem dúvida. Vale a pena uma olhadela no CCB até ao final do ano, não pagas mais por isso.
07/01/2008

Olhando para trás apercebo-me que nutro um sentimento de amor/ódio pelos rebuçados peitorais do Dr. Bayard. Apesar da receita estar impressa nas “novas” embalagens ancestrais ainda são muitos os mitos e as lendas em relação aos seus ingredientes. A lendária combinação de alteia e mel é ainda às vezes confundida com anis e até com pasta de dentes do senhor castor. No fundo, e apesar da versão oficial da Fábrica de Rebuçados Baiar, ninguém sabe ao certo.
Esticar as orelhas àquele plástico branco sempre foi uma tradição da família Alvarenga. Curando a rouquidão, suavizando a dor de garganta, trazendo distracção a uma cartada que o primo está a jogar demasiado lentamente e, acima de tudo, eliminando a tosse como poucas mistelas de frasco conseguem. Existe todavia um lado lunar. Desde petiz que os ocasionais cortes transversais nas drageias Bayard me desfiam a língua aos bocados, um defeito de fabrico recorrente que já reclamou muitos órgãos do paladar. Por fim, cada vez que abro cada pacote de rebuçados Dr. Bayard anseio por um rebuçadinho que, por uma vez que seja, também tivesse as faces dos outros utilizadores das drageias dando a cara na frente da embalagem. Uma face que não seja o aborrecido indivíduo de meia idade com um cachecol e um penteado dos anos 40. Eu até gosto dos anos 40 mas acho que se devia dar uma oportunidade de brilhar ao senhor idoso careca e às meninas, todos eles também aflitos com tosse. Este protagonismo egocêntrico do indivíduo de meia idade é escusado e inexplicável. Vá lá, ponham a menina do laço e o velhinho Lex Luthor nem que seja em 10 dos 100 gramas de rebuçados de cada embalagem. Dr Bayard, imploro, devo-lhe tanto! Com um site destes, és capaz de tudo, que música....a sério, mesmo tocante e que história. Dr. Bayard para sempre!
03/12/2007
De volta. Cheguei a casa. Um Inverno que arrefece mas concede ao sol a possibilidade de brilhar sobre o que são sem dúvida tempos emocionantes. As doses de ansiedade que trouxe reflectem-se nos problemas de mecanização das engrenagens da máquina-internet. Esta ansiedade é contudo esmagada sem dó pelo bom de estar com a família, a descontração dos amigos e o confortável da minha cara-metade.
31/10/2007
Este acabar de dia chegou como o iniciar daquele dia de Verao em que se vai pela primeira vez a praia. Sinto o tremer de algo quente, bom, ocupado mas relaxado nos tempos que vem. Outubro 2007 acabou. Provavelmente um dos meses mais desafiadores e ocupados que ja tive. Acabou e estou contente e realizado com o que fiz, apesar de ainda nao ter bem nocao da qualidade dos meus produtos ate mais tarde. Estou contente com a maneira como adicionei, superei e risquei coisas da minha agenda com um tempinho aqui e ali para umas horas a fazer as coisas que gosto com amigos. Sinto que estas primeiras semanas de Novembro vao passar rapido com os ultimos dias no escritorio, os adeus e ate jas aos amigos Noruegueses e Sul-Africanos que me acompanharam nas aventuras do ultimo ano e meio e as preparacoes para um regresso muito especial. Acho que nem vou notar o salto que vou dar de Verao para Inverno numa meia duzia de horas.
26/10/2007
25/10/2007
Esta semana passou devagar. Lenta e pastosa como aquela senhora que no final de uma tarde de verao esmaga como quem danca os marmelos da outra arvore. Amanha vao estar 33 graus. Nao sei o que e que vai acontecer com a piscina amanha. Ouco rumores mas os livros puxam-me para outro lado. E o inicio do ultimo exame das cadeiras praticas do meu mestrado (talvez o ultimo da minha vida). Estou a planear, entre as andancas e rituais vexantes do exame , uma reminiscencia para relaxar: ai pelas 17.20 vou lembrar-me das garrafas verdes de sumol ananas comprados na Dona Regina e de um toldo velho a descer ao som da ferrugem. De como e bom, de quando em quando, esvaziar a mente para pensar em tudo.
14/10/2007
Acho que e desta que a Primavera chegou ao Cabo Oeste da Africa Austral. Sao ja tres dias solidos com o sol a esguichar luz para os meus olhos e a acordar-me de manha. Na sexta sai do escritorio por volta das seis horas e ainda havia bocaditos de luz mais avermelhada a andar de um lado para o outro. Espero que nao seja engano. Que a luz fique e que o meu casacao verde de aquecer fique no armario e comece a ganhar bafio.
12/10/2007
Este e um mes de livros, prazos, exames, entregas e propostas. De semanas planeadas e organizadas ao dia. Sem dias livres, daqueles bons para nao fazer nada e desperdicar o tempo com qualidade. Outubro e um mes de longos dias em que se le, escolhe e se agarra numa pergunta ou objectivo para se colar na parte de tras do cerebro enquanto se procura resposta em tombos poeirentos e sites sofisticados. A melhor coisa que aprendi desde que comecei a trabalhar no CCS e : O maior inimigo do stress e o plano. Sim, e uma daquelas frases feitas parecidas com aquelas que o nosso director de vez em quando chuta para nos motivar. Mas pronto, esta e minha...
06/10/2007
Gosto das minhas coisas velhinhas, funcionais. Das coisas que eu tenho com historias e fita-cola a volta. De tecidos com buracos, cabedal e borracha remendada com bisnaga de silicone. De usar ganga desfiada e sapatos, nao gastos, mas sim ultra-adaptados ao ambiente. Objectos que, mesmo assim, semana apos semana, continuam a exercer as suas funcoes com primor. Sem pestanejar.
Naqueles a minha volta encontro respeito e admiracao. O meu estatuto na escola e no escritorio e o de guru da ultrapassada tecnologia. Das coisas velhas sem serem antigas. De sistemas e materiais produzidos nessa decada de noventa que ja la vai longe e que poucos compreendem. Sou o visionario que mesmo sabendo que vai receber uma resposta negativa ainda assim tenta verificar a compatibilidade daquele software com o Windows Millenium (oficialmente o pior sistema operativo da historia) .
Nao e facil ser o que eu chamo um "esmiucador-de-coisas-que-vao-funcionando"
Naqueles a minha volta encontro respeito e admiracao. O meu estatuto na escola e no escritorio e o de guru da ultrapassada tecnologia. Das coisas velhas sem serem antigas. De sistemas e materiais produzidos nessa decada de noventa que ja la vai longe e que poucos compreendem. Sou o visionario que mesmo sabendo que vai receber uma resposta negativa ainda assim tenta verificar a compatibilidade daquele software com o Windows Millenium (oficialmente o pior sistema operativo da historia) .
Nao e facil ser o que eu chamo um "esmiucador-de-coisas-que-vao-funcionando"
04/10/2007
Ontem foi dia de limpeza de Primavera em casa. A casa ficou um primor, tao limpa que eu estive tentado por momentos a comer a minha eggy-toast do chao da sala de estar. Tudo fica um bocadinho mais resplandecente na Primavera. Estacao de sol, passarinhos e alergias.
Este ano, gracas a ligeira inclinacao do planeta terra, para mim o Inverno vem a seguir a Primavera. Vou saltar a estacao mais divertida mas e por uma boa causa. Acreditem que nao me queixo.
Este ano, gracas a ligeira inclinacao do planeta terra, para mim o Inverno vem a seguir a Primavera. Vou saltar a estacao mais divertida mas e por uma boa causa. Acreditem que nao me queixo.
03/10/2007
E muito de mim divertir-me com a tendencia de divagar por conteudos da biblioteca desconectados de vigentes projectos academicos. Hoje um livro sobre a naturalidade em conversacao veio de encontro contra a minha cabeca. Olha como ele define conversacao:
Uma ocasiao de discurso fora de um ambiente institucionalizado, que involva pelo menos dois participantes partilhando a responsabilidade pelo progresso e resultado de um encontro verbal improptu e que consista em mais do que uma troca ritualizada.
Nao consigo perceber porque e que acho isto engracado. Por outro lado compreendo imediatamente porque me agrada o principio numero nove e o principio numero dez da naturalidade em conversacao: inexplicitness - (inexpliciticidade!?) e responsabilidade partilhada respectivamente.
O numero nove explica que a coisa mais ridicula pode ser dita e integrada com sucesso numa conversa se de alguma maneira o contexto o justificar. Numa conversa, tudo e altamente contexto-dependente. Isto tudo e um grande alivio para mim. Justifica algumas das estranhas conversas que tenho e gosto de ter - sobre fossas, alergias a gatos e ate a expressao de saudade atraves da quantificacao das mesmas em iogurtes.
O principio dez alivia ainda mais qualquer sentimento de ridicularidade destas conversas atraves da dispersao desta mesma ridicularidade pelos restantes intervenientes.
Uma ocasiao de discurso fora de um ambiente institucionalizado, que involva pelo menos dois participantes partilhando a responsabilidade pelo progresso e resultado de um encontro verbal improptu e que consista em mais do que uma troca ritualizada.
Nao consigo perceber porque e que acho isto engracado. Por outro lado compreendo imediatamente porque me agrada o principio numero nove e o principio numero dez da naturalidade em conversacao: inexplicitness - (inexpliciticidade!?) e responsabilidade partilhada respectivamente.
O numero nove explica que a coisa mais ridicula pode ser dita e integrada com sucesso numa conversa se de alguma maneira o contexto o justificar. Numa conversa, tudo e altamente contexto-dependente. Isto tudo e um grande alivio para mim. Justifica algumas das estranhas conversas que tenho e gosto de ter - sobre fossas, alergias a gatos e ate a expressao de saudade atraves da quantificacao das mesmas em iogurtes.
O principio dez alivia ainda mais qualquer sentimento de ridicularidade destas conversas atraves da dispersao desta mesma ridicularidade pelos restantes intervenientes.
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