14/04/2013

Zero Dark Thirty

Kathryn Bigelow, 2013

Misteriosa e fascinante esta olhadela irresistível para dentro de um mundo - mais ou menos ficcionado -  de algumas das pessoas que durante tantos anos estiveram no encalço do homem mais procurado do planeta. Mostra o papel da tortura, a assimetria da guerra, violência e vingança em larga escala.

28/02/2013

Hitchcock

Sacha Gervasi, 2012, com Anthony Hopkins

Põe deliciosamente a nú o frágil e maníaco Hitchcock na sua vida privada e dificuldades do processo creativo.  Easywatch.

Wreck-it Ralph

Rich Moore, 2012

A ideia é óptima mas não cumpriu com as expectativas do início.
Eu não conhecia o Ralph e faltou uma presença maior dos ícones do final dos anos 80 e início dos 90. A cena dos vilões anónimos é excelente.

Bestas do Sul Selvagem

Benh Zeitlin, 2012, com Quvenzhane Wallis

Ela é fofinha mas não me consigo deixar convencer que os javalis eram necessários. Aqueles instrumentos, jangadas, casas, camas, cozinhas e desarrumações são obras de arte.

Camadas de lã

Duas senhoras fortes e fofinhas com camadas de lã e, a mais nova, talvez a filha, de calças justas de ganga, aguardam sentadas. C217, balcão quatro. A mais velha abraça-se às suas muletas e a mais nova lê carinhosamente as pequenas folhas da revista Maria.

Ela mexe os lábios em silêncio, ao ritmo das palavras. Às vezes ela surpreende quem se senta ao seu lado com um ou outro som. C220, balcão quatro, uma multidão bate palmas na televisão silenciosa e suspensa. Com o burburinho das vozes e do esperar como ruído de fundo, a vizinha, surpreendida, torna-se amiga.

10/02/2013

Jogging hospitalar

Foi correr num dia de Inverno sem chuva. Com gorro, envelope, papel, moeda e cartão na mão. Da casa até ao hospital, passa-se no cemitério -  pausa-se num canto de pedras frias e pacíficas -  e os carros são poucos e as pessoas também. A enorme cascata pré-fabricada que leva até à entrada do centro hospitalar tem água parada bolorenta e o grande largo redondo coberto de pastilhas não tem água.

As pessoas entram e saem devagar. Paga-se nas urgências não no hall principal. Não são dois euros mas sim quatro euros porque foram duas radiografias. A maquineta multibanco do Millennium BCP dá erro. Duas radiografias custam quatro euros. "Boa tarde, obrigado e bom trabalho". Nem os olhos se levantam, nem a boca se move. Passa-se rápido pelos corpos preocupados e doentes e depois é correr e correr.

The Master

Paul Thomas Anderson - 2012, com Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman

Pris Audiovisuais, Zon Lusomundo Colombo

Hubbard parecia que ia estar lá, história e personagens de profundez incrível pareciam que iam estar lá. Depois acabaram por não estar.

Ficaram duas performances estrondosas que contribuiram para um caos sem rumo, um novelo amarfanhado, sem sentido. Talvez tenha sido por ter perdido os primeiros cinco minutos.



03/02/2013

Jim

Companhia Paulo Ribeiro, 2012 - São Luiz 1 Fevereiro 2013


Coreografia e direcção - Paulo Ribeiro
Interpretação - Anna Réti, Carla Ribeiro, Leonor Keil, Sandra Rosado, Avelino Chantre e Pedro Ramos

Jim Morrison regressa à vida mutado, alterado, completo e dividido em sete corpos. Extasiante e com devaneios devidos, com calma, em crescendo, deixa-nos a olhar para dentro de nós um pouco como Jim faria consigo, mergulhando com a mente naqueles corpos.

"O Jim Morrison era um solitário, completamente virado para si próprio, desafiava constantemente o limiar da lucidez. À boa maneira da década de 60, este estado mediúnico era um meio para alcançar outros estádios de perceção e de sensibilidade".

"acho que há um cerco cada vez maior à alma, à interioridade, quase uma anestesia total. Antes, este cerco era feito através daquilo que nos era dado a ver, sobretudo através da televisão. Agora vivemos sob o jugo de todo este fantasma da insustentabilidade de um país, de um continente, de um mundo. O que nos resta? Não há tempo para preocupações mais humanas, mais interiores, mais cósmicas, para outras perceções, como Jim Morrison defendeu".


01/02/2013

Lincoln

Steven Spielberg 2012

Daniel Day-Lewis é de facto extraordinário assim como Lincoln também o parece ter sido.  Conto fantástico sobre fazer política partidária. O pragmatismo, dificuldade e dilemas interiores que verdadeiros líderes atravessam ao agir com, e sobre as pessoas e o mundo à sua volta.  Tantas histórias e piadinhas conta o senhor.

Skyfall 007

Sam Mendes, 2012 "You weren't expecting an exploding pen were you Mr. Bond?," pergunta o jovem Q. Cumpre as expectativas de 007, subvertendo algumas das pequenas repetições das últimas décadas e tendo em Javier Bardem um dos melhores vilões de sempre. Pena ele ter tirado aquela estrutura interior apenas uma vez. E as motas nos telhados, um nada demais.

25/01/2013

Life of Pi


Yann Martel, 2001, Cannongate 2003

Uma fábula sobre sobreviver e viver.
Genial e intenso. Que nos absorve para um mundo surrealmente prático e cru de alguém perdido no mundo, num barco. Com um tigre?



"I know what you want. You want a story that won't surprise you. That will confirm what you already know. That won't make you see higher or further or differently. You want a flat story. An immobile story. You want dry, yeastless factuality".


"High calls low and low calls high. The lower you are, the higher your mind will want to soar"
´
O filme de 2012 de Ang Lee, apesar dos cenários e imagens bonitas aqui e ali, é um abutre às coisas maravilhosas que a nossa imaginação faz enquanto quando imaginamos aquilo porque Pi passou nas nossas mentes durante a leitura.

21/01/2013

Argo

Ben Affleck, 2012

A dosagem de emoção e thriller ultrapassa largamente a realidade do que se passou que foi, na verdade, mais complexo, mais tenso nas pequenas coisas e menos improvável. Esta imprecisão caricatura e acaba por deixar mal a excelente história que conta. Agora lá que entretém, entretém.

13/01/2013

The invention of lying

Ricky Gervais, 2009

Gervais é o primeiro descobrir o que é a mentira num mundo em que ninguém o faz. É inteligente e lightzinho. Ainda assim, ao bom estilo do autor, quando ele mente ao mundo sobre o que se passa depois da morte questiona a religião. Põe a nu a duplicidade da mentira,  também ela higiénica e regeneradora por vezes.


Estado de excepção

Rui Horta, Teatro São Luiz, 10 Janeiro 2013
Com Anton Skrzypiciel, Miguel Borges, Noiserv, Pedro Gil e Teresa Alves da Silva.

Teatro experimental. Retalhado e compartimentalizado, as suas histórias foram talvez cosidas sofregamente. Do desconcertante início repleto de ruído de fundo da crise, "sempre por trás das nossas vidas", rasga-se o guião e dá-se o baralho de novo.

"São experiências, não têm que ser consequentes, de ter um código," alguém me diz.

"Enfrentaremos todos os ataques pessoais. Mais um Natalinho. Mais um fim de ano. Mais uns aniversários.  Não posso deixar de por o entulho ali. Não posso deixar de passar factura aqui. Já não há outro caminho."



Cada um o seu cinema

Festival de Cannes, 2007 - Edição Midas Filmes, 2008


Pelo aniversário 60 do Festival de Cannes 33 cineastas foram convidados a contar numa curta a sua visão do cinema e das salas de cinema. Lynchs e Kitanos são uns meninos formatados ao pé de Manoel de Oliveira que, desafiado para um filme de três minutos sobre o que isso significa para ele, é o único que não mostra nenhum cinema em si.
Faz uma parábola com o anterior Papa e Krutschev, dizendo o sumo pontífice ao líder soviético que, entre os dois, pelo menos há uma coisa em comum: a barriga. Oliveira é o chamado 'boss'