22/11/2015

Lisbon Poets

2015, Luís de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Fernando Pessoa

A tradução  de Camões é particularmente dura, interessante e até reveladora, para quem revisita os textos. Mário de Sá-Carneiro escrevem a doce vida da morte nos seus poemas e espel
ham vidas intensas e demasiado breves. Pessoa é simplesmente o mais incrível dos incríveis.

São dois abismos a beijar-se

Tiago Vieira, 31 Agosto 2015, Latoaria

Com Guida Marques, Maria Lalande, Susana Oliveira, Rui Raposo da Silva, Vânia Rodrigues, Teresa Machado, Inês Vaz

A Latoaria dá-se a conhecer em todo o seu esplendor, em cada recanto escuro e repleto de oníricas acumulações de objectos. Pobre e agressiva Inês de Castro, morta por um misto de desejo de poder e amor destrutivo.

Teria sido um embrulho perfeito se se tivesse contido aos cruzamentos repetidos dos pedaços de Pedro e Inês de Castro.

06/11/2015

Chet Faker

Julho de 2015, Coliseu de Lisboa

O Coliseu estava repleto de telemóveis e luzes modernas, e os nossos vizinhos eram insuportáveis. Chet Faker tentou resistir: pediu uma música sem filmes nem fotos. Ela respondeu a pedir uma selfie. Um tom diferente, mais íntimo e menos 'dance' que na mítica performance no 'alive', há dois anos. Vale sempre a pena ir.
 


01/11/2015

Deixem o pimba em paz

Bruno Nogueira, Manuela Azevedo, Filipe Melo
São Luiz, Julho 2015


Privilégio arrebatador e genialmente engraçado, terno, tecido com amor. Ode ao pimba. Reconstruído com afecto e humor, como tanto merece.

 Ode às coisas boas e ricas da cultura popular portuguesa, na sua simplicidade, no seu original bom humor e crueza.


A carta

Manoel de Oliveira, 1999
Com Chiara Mastroianni, Pedro Abrunhosa, Leonor Silveira

Um premiado Manoel de Oliveira já tinha esta história na cabeça, depois de um professor de francês avançado, de Braga, lhe ter falado. Sucumbe à rectidão de Madame Lefévre, moderna, como o novo Príncipe Abrunhosa, que era ele, mas preferia outro carro que não o vermelho. Lefévre é arrebatadora, Ela é boa pessoa mas o sentimento descontrolado tudo destrói.

Tudo o que tenho para oferecer: feridas

Tiago Vieira, Maio 2015
Latoaria

Papéis de jornais, animismo, vozes individuais de dôr e angústia. A absurdidade divertida da vida sempre presente. Cadeira Bausch a trabalhar, o caixão de tijolos fiadeiro. A repetição das lavadeiras: fortíssima.

Com Anaís Thinon, Luis Ribeiro, André Delgado, Guida Marques, Maria Lalande, Rui Raposo da Silva, Cláudia Domingues, Sofia Fialho, Tânia Bessa e Vera Freire.

Homem-Formiga

Peyton Reed, 2015

Filme sobre homem que encolhe e fica com força desproporcionalmente superior ao seu tamanho. Os adolescentes enviam muitos sms quando vão ao cinema.

31/10/2015

Ex-machina

Alex Garland, 2015

Com Alicia Vikander, Oscar Isaac

O novo e inteligente CEO, fresco, musculado, de intelecto arrogantemente superior, mas sem tocar sequer ao de leve numa gravata dos 'power suits' da velha guarda. Criou a máquina humana que vai superar o teste de Turing. E Caleb foi sorteado para a testar num simples e remoto mundo, a norte, sem rede. Foi sorteado não foi?


É como uma noite em pleno dia aos pedaços

Tiago Vieira, Julho 2015
Latoaria

Violenta emoção à flôr da mesa. Duro trabalho com a cadeira que não foi repetido na sessão imediatamente a seguir. Estranhos monólogos do líder. Um coração que abriu uma cabeça de excepção. Uma dança paralela para lá dos vidros. Estou a improvisar sobre pedras demasiado longas. A melhor performance individual da menina Marques.

Com Anabela Ribeiro, Guida Marques, Inês Vaz, Isadora Alves, Marco Lima, Maria LaLande, Miguel Raposo, Sofia Fialho, Susana Oliveira, Tânia Bessa, Teresa Machado, Tiago Vieira e Xana Lagusi.

11/10/2015

O mapa e o território

Michel Houellebecq, 2010
Editora Objectiva


Mordaz auto-comiseração individual e de nós enquanto sociedade. Reflecte aspectos mais ilógicos e incompreensíveis dos dias de hoje. Uma pequena janela para o mundo da arte e literatura, sua beleza e incompreensibilidade, que correm em paralelo, com a vida em geral. Houllebecq, num cameo literário alargado, destrói-se deliciosamente. Que prazer.

33 Voltava tarde para casa e nem sequer tentava dormir com a babysitter, apesar de ser uma coisa que a maioria dos homens tentaria fazer; ouvia a narração do que se passara durante o dia, sorria para o filho, pagava o salário pedido. Era o chefe de uma família decomposta e não pensava em qualquer recomposição. Ganhava muito dinheiro:  administrador-geral de uma empresa de construção, especializara-se na realização de estâncias balneares 'chave na mão'.

152 Na minha vida de consumidor -  disse - , terei conhecido três produtos perfeitos: os sapatos Paraboot Marche, o conjunto portátil-impressora Canon libris e a parka Camel Legend. Amei apaixonadamente estes produtos, teria passado a vida diante deles, tornado a comprar regularmente, por força do seu desgaste natural, produtos indênticos. Tinha-se estabelecido uma relação perfeita e fiel que fizera de mim um consumidor feliz. (...) É horrivelmente brutal, enquanto as espécies animais mais insignificantes levam milhares, às vezes milhões de anos a desaparecer, os produtos manufacturados são riscados da superfície do globo em poucos dias. (...) Sofrem ditames dos responsáveis da linha de produção, que sabem naturalmente melhor que ninguém o que quer o consumidor, que pretendem captar uma expectativa de novidade ao consumidor, e que na realidade não fazem mais que transformar a vida dele numa esgotante e desesperada busca, numa errância sem fim entre linhas eternamente modificadas.

205 No meio da derrocada física generalizada a que se resume a velhice, a voz e o olhar trazem o testemunho dolorosamente irrecusável da persistência do carácter, das aspirações, dos desejos, de tudo o que constitui uma personalidade humana.

248 O essencial era permanecer activo, era manter uma actividade intelectual mínima, porque um polícia completamente inactivo desanima e torna-se portanto incapaz de reagir quando os factor importantes começam a manifestar-se.

291 A economia não estava ligada a quase nada, a não ser ao que havia de mais maquinal, de mais previsível, de mais mecânico no ser humano. Não só não era uma ciência, como não era uma arte, ao fim e ao cabo não é coisíssima nenhuma.

27/07/2015

Destruição

Tiago Vieira, Latoaria  das Escadas do Monte, Maio 2015, com Guida Marques

A vida rasgada na areia. Atirada contra a parede e devolvida. Sempre que o amor me quiser, ela canta contra a parede, sem erro, à pressa. Uma ruína industrial invadida por corpos que parecem o triplo do número que são. Denegrida nos ombros agarrados à parede. Sempre a parede. Tantos objectos frenéticos. Maratona.

26/07/2015

O Sal da Terra

Wim Wenders, Juliano Salgado, 2014

Sebastião Salgado. Economista. Fotógrafo. Atravessou as nossas décadas perdido em viagem. Capturando o paraíso e inferno dos nossos mundos, mas principalmente os infernos que fazemos uns aos outros. 'Workers' e aquela foto no Brasil é talvez o meu favorito. Captura beleza que não é perceptível em vídeo, em presença. E ainda ensaia mudar parte do mundo com o Instituto Terra.

Relatos Selvagens

Damián Szifrón, 2014, com Ricardo Darín, Erica Rivas

Louco, divertido, negro, perverso, irrealmente familiar. Cenas inesquecíveis, para se contarem durante muitos anos: avião que cai nos velhinhos, veneno de ratos, road rage, carros rebocados, homicídios involuntários encobertos e um casamento épico. Ódio, violência, auto-preservação, racionalidade, raiva, amor e descontrolo: é a natureza humana. Somos animais.

1984

George Orwell, 1987, Abril 2012 Antígona, com direitos para Portugal desde 2007



Winston Smith. Na sua viagem condenada, ocasionalmente, acreditamos que a prometida semente da revolução de luz vai explodir, resolver. Mas a agonia é, simplesmente, crescente no suspense, no corpo e na mente. Neste último e eterno aviso de Orwell o totalitarismo quebra Winston, já quebrado desde o início.

p.6 O instrumento podia ser regulado, mas não havia meio de o desligar por completo

p.7 Havia que viver - e vivia-se, graças a um hábito que se fazia instinto - no pressuposto que cada som transmitido estaria a ser escutado e salvo na escuridão, cada movimento vigiado.

p.8 guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força

p. 30 Nada nos pertencia, excepto os poucos centímetros cúbicos no interior o nosso crâneo

p.38 Tal era a suprema subtileza: induzir conscientemente a inconsciência, para depois, num segundo passo, tornar-se inconsciente do acto de hipnose, acabado de levar a cabo.

p.54 Estamos destruir palavras, dezenas, centenas de palavras por dia. Estamos a reduzir a língua ao seu esqueleto. A décima primeira edição não há-de conter uma única palavra susceptível de se tornar obsoleta antes do ano 2050.

p.55 Coisa magnífica, a destruição de palavras. Claro que a grande quebra é nos verbos e nos adjectivos. E não só os sinónimos; há também os antónimos. Afinal de contas, no teu íntimo, preferias que se conservasse a velhilíngua, com toda a sua imprecisão e os seus inúteis matizes de sentido.

p. 167 Não lhe parecia, pelas recordações, que tivesse sido uma mulher excepcional, e menos ainda uma mulher inteligente; no entanto, possuíra uma certa nobreza, certa pureza, simplesmente porque a conduta por que se regia era apenas de carácter pessoal.

p.187 Winston afundou-se na poltrona e pôs os pés sobre a guarda da lareira. Era a felicidade absoluta, era a eternidade.

p. 269 Haverá sempre a embriaguez do poder, cada vez mais intensa, cada vez mais subtil. Sempre, a todo o momento, a emoção da vitória, a sensação de esmagar um inimigo indefeso. Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota a pisar um rosto humano.

p 327 Bernard Crick Sistemas autoritários de governação são maus mas a maior ameaça é o totalitarismo. O primeiro limita o nosso humanismo, mas o segundo destrói-o. Se o totalitarismo se tornasse a nossa vida de todos os dias, os nossos outros valores humanos, a liberdade, a fraternidade, a justiça social, o amor da literatura, o apreço pelo diálogo franco e a escrita clara, a fé na honestidade natural e na correcção natural das pessoas comuns, o amor pela natureza, o prazer de constatara diversidade dos homens, o patriotismo, que em Orwell significava simplesmente o amor à sua terra, que opunha ao nacionalismo, tudo isso desapareceria.

20/05/2015

Kafka à Beira Mar

2002 Haruki Murakami,
13ra edição 2009, Casa das Letras
Tradução de Maria João Lourenço

Loucura onírica regrada pela duas histórias paralelas, dura e volúvel como a pedra de entrada. As dualidades não são duais, são multidesdobradas em metáforas, símbolos e interpretações. Postas cá para os olhos e mentes do leitor.
Detective, contemplador. Murakami deixa a nossa mente ligar e preencher os espaços e concepções que deixa premeditadamente vazios. Um assassinado em sonho é tão grave como um real? Coronel Sanders a cumprir a sua desprezível função, simplesmente porque a sociedade o espera que o faça. O adulto e o adolescente são, na mesma pessoa, seres fundamentalmente diferentes. Podemos amar um e odiar o outro. Sonhar com a pessoa daqueles seis meses e meio. A jornada e o refúgio contemplado são o mais importante, a história, objectos poucos e a música.

62 "Que viva como se estivesse já morto: não terá nada a temer", escreveu Yamamoto Tsunetono, porventura o intérprete mais radical do bushido, código
de honra fundado, no século XVII, por Yanaga Soko e seguido pelos samurais", e alguns bascos.

141 É por isso que gosto de ouvir Schubert quanto viajo de carro. Precisamente pelo facto de a imperfeição por detrás de cada interpretação espreitar a cada curva. Essa profunda imperfeição artística estimula a nossa consciência, desperta os nossos sentidos. Se eu escutar uma interpretação absolutamente perfeita de uma peça absolutamente perfeita, posso cair na tentação de fechar os olhos e querer morrer ali mesmo.
Mas ao escutar a sonata em Ré maior apercebo-me das limitações próprias da capacidade humana e torna-se claro para mim que, até certo ponto, a perfeição só pode ser atingida através de uma série de imperfeições.

219 É segunda-feira e a biblioteca está fechada. Trata-se de um sítio calmo por natureza, mas em dia de descanso transforma-se num mundo esquecido pelo tempo. Ou então num local que sustém a respiração, com a esperança que o tempo não dê por ele.

232 Homens vazios segundo T. S. Elliot: almas que preenchem sem piedade a falta de imaginação com pedaços de palha seca, sem terem consciência do que estão a fazer. Insensíveis, que te lançam à cara palavras vazias de sentido, tentando obrigar-te a fazer o que não queres.

362 Coronel Sanders: O bem e o mal não me dizem nada. Sou um homem muito pragmático. Dêem-me um objectivo neutro e tudo o que me interessa é realizar a função para a qual fui programado. Verificar a relação de forças entre os vários mundos e certificar-me que está tudo em ordem, por forma a garantir que a relação entre a causa e o efeito funcionam e que as coisas desempenham o seu papel original.

380 Pego numa mão cheia de areia e deixo-a correr entre os dedos. Cai e, tal como acontece com o tempo perdido, torna-se parte do que já lá existe.

400 Jean Jacques Rousseau definiu, até certo ponto, civilização como o estádio em que as pessoas constroem vedações à sua volta. A civilização é o produto da falta de liberdade. As pessoas que constroem barreiras altas e sólidas são as que melhor sobrevivem.

479 - Acredita que a música tem o poder de mudar as pessoas? Que uma pessoa pode ouvir uma certa e determinada peça de música e conhecer uma grande mudança dentro de si?
- Claro que sim. Passamos por uma experiência, que funciona como uma espécie de reacção química, capaz de transformar algo que temos dentro de nós. Quando, mais tarde, reflectimos sobre isso, descobrimos que todos os padrões por que nos regemos se alargam mais um furo e que o mundo se abriu diante de nós de forma inesperada. Sim, já passei por isso. Não tantas vezes como isso, mas já me aconteceu.

490 Corvo: A guerra gera mais guerra. Lambuza-se com o sangue violentamente derramado, alimentando-se de carne morta. A guerra é em si mesma uma forma de vida perfeita e acabada.