28/02/2016

As Bodas de Deus

João César Monteiro, 1999
Com Rita Durão, Joana Azevedo e Luís Miguel Cintra

A fortuna bate à porta quando Luís Miguel Cintra a entregar uma mala de dinheiro a João de Deus, transformando-o no Barão de Deus.

Memorável sarça ardente, a Traviata no camarote presidencial do São Carlos e uma noite de amor surpreendente, em que César expõe a sua fragilidade de forma corajosa e bela.

"- Tome lá cem escudos. Mas não gaste tudo em vinho. - Deus a abençoe Madre Abadessa, por esta santa esmolinha. - Que Deus o acompanhe. - Mais vale só que mal acompanhado. … - Ó Agostinho, toma lá cem dólares, mas não gastes tudo em freiras. - Muito obrigado meu bom senhor"


 “- Será da minha vista ou as maminhas também te cresceram? (...) Achas que posso ver só uma? Tenho estado a pão e laranjas”.

Andrei Rublev

Andrei Tarkovsky, 1973

Rublev é apenas a desculpa para pintar um mundo de convulsão, destruição e caos, sempre belo e surpreendente. Rico de segredos e magia. A construção do sino, de proporções épicas, é incrível. Obra de arte.

09/02/2016

Vou para casa

Manoel de Oliveira, 2001
Com Michel Piccoli, John Malkovich

A metáfora é maior do que eu pensava. O caminho das máquinas, da opressão maquinal que nos pressiona até desejarmos voltar para o ventre da mãe, para casa. Baseado em factos reais, este é das mais belas peças criadas por Manoel. Lindo de morrer. Paris capturada no agora. Uma ode ao teatro, à intersecção do teatro e cinema com a vida real. Brilhante.

08/02/2016

Palavra e Utopia

Manoel de Oliveira, 2000
Com Luís Miguel Cintra, Lima Duarte, Leonor Silveira, Ricardo Trêpa

Pai da palavra e utopia portuguesa. Da liberdade, do futuro, aventura, trabalho e entrega. Escritor, orador e pensador virtuoso. De facto, calham bem a Oliveira as palavras: "servir aos futuros, pagar aos passados e não dever nada aos presentes".

"Finalmente, vossa Reverendíssima me diz que não sabe a resolução que se tomará em Lisboa, e lhe parece que Sua Majestade se lançará de fora. Eu o quisera muito metido de dentro, porque vi cartas de alguns que não estão mui longe dos seus ouvidos", Padre António Vieira, Séc. XVII, que escreveu, não estou a brincar, um livro chamado 'História do Futuro'.

Purity


Jonathan Franzen, 2015
Fourth Estate - London

A pureza é afinal impossível, a não ser que a tomemos por obsessão. A frustração de falhar nas relações amorosas, familiares e laborais. Segredos desvendados atrás de segredos, visões e vozes que se cruzam, o tempo utilizado de forma elástica.

6 All these good-hearted San Lorenzo Valley types had glimpsed in Pip's mother what Pip herself, in her early teens, had seen and felt proud of: an ineffable sort of greatness. You didn't have to write to be a poet, you didn't have to create things to be an artist. Her mother's spiritual endeavor was itself a kind of art - an art of invisibility. There was never a television in their cabin and no computer before Pip turned twelve; her mother's main source of news was the Santa Cruz Sentinel, which she read for the small daily pleasure of being appalled by the world.

45 Garth and Erik imagined a labor utopia. Their theory was that the technology-driven gains in productivity and the resulting loss of manufacturing jobs would inevitably result in better wealth distribution, when capital realized that it could not afford to pauperize the consumers who bought its robot-made products.

103 As the chief state economist, he was responsible for the wholesale massaging of data, for demonstrating increases in productivity where there weren't any, for balancing a budget that every year drifted farther from reality, for adjusting official exchange rates to maximize the budgetary impact of whatever hard currency the Republic could finagle or extort, for magnifying the economy's few successes and making optimistic excuses for its many failures. The top party leaders could afford to be stupid or cynical about his numbers, but he himself had to believe in the story they told. This required political conviction, self-deception, and, perhaps especially, self-pity.

180 The leading occupational hazard of Leila's job was sources who wanted to be friends with her. The world was overpopulated by talkers and underpopulated by listeners, and many of her sources gave her the impression that she was the first person who'd ever truly listened to them.

187 On a rare good day, he might produce a long paragraph - disconnected, like all its fellows, from any other paragraph - that made her hoot with laughter.

202 "I'm sorry", she said. "But I wouldn't be a responsible journalist if I didn't hear your side of the story. "There is no story". Well, see, but that's a side itself. Because other sides are saying there is a story.

204 The irony of the internet is that it's made the journalist's job so much easier. You can research in five minutes what used to take five days. But the internet is also killing journalism. There's no substitute for the reporter who's worked a beat for twenty years, who's cultivated sources, who can see the difference between a story and a non-story. Google and accurint can make you feel very smart, but the best stories come when you're out in the field. Your source makes some off-hand remark, and suddenly you see the real story. That's when I feel most alive, when I'm sitting at the computer I'm only half-alive.

492 He was so immersed and implicated in the internet, so enmeshed in its totalitarism, that his online existence was coming to seem realer than his physical self. Who even cared what a person's private thoughts about him were? Private thoughts didn't exist in the retrievable, disseminable and readable way that data did. The aim of the internet (...) was to liberate humanity from the tasks - making things, learning things, remembering things - that had previously given meaning to life and thus had constituted life. Now it seemed as if the only task that meant anything was search-engine optimization.

539 The world ... an eternal struggle for power - power, power power: how could the world be organized around the struggle for something so lonely and oppressive in the having of it, Secrets were power, money was power, being needed was power.

546 Yes, a kind of heaven: long rallies on an autumn evening, the exercise of skill in light still good enough to hit by, the faithful pock of a tennis ball. It was enough.
The sun went down, the air was deliciously cool, and they kept hitting, the ball bouncing up in a low arc. That instant of connecting, the satisfaction of reversing the ball's inertia, the sweetness of the sweet spot (...) perfect contentment.

526 Could a more perfectly manufactured object than a tennis ball be imagined? Fuzzy and spherical, squeezable and bouncy, its stitching a pair of matching tongues, its voice on impact a pock in the most pleasing of registers.

10/01/2016

Locke

2014, Steven Knight, com Tom Hardy

O poder da interpretação, de ir construindo as peças do puzzle de quem alguém é, qual a sua história, tudo durante uma viagem, sempre dentro do carro. Só com uma personagem principal a falar em alta voz. Quem diria que funciona tão bem.

A juventude

Paolo Sorrentino, 2015
Michael Caine, Harvey Keitel, Paul Dano, Jane Fonda

Obra prima visual, num surreal purgatório: belo, rico, profundo. Coisas maravilhosas: o monólogo da Rachel Weisz na marquesa da massagem; o suicídio; Michael Caine no geral; Maradona ouve a conversa na piscina e vem ter com a malta dizer que também é canhoto;  pequeno-almoço com o Hitler; a Miss Universo.













The big short

Adam McKay, 2015
Com Christian Bale, Steve Carell, Ryan Gosling, Brad Pitt

Aquele 'crash' que, por mais vezes que a história se repita, tão poucos previram na sua dimensão. As repercussões desta bolha ainda explodem hoje nas nossas mãos. Em retrospectiva era óbvio. Muito bem contado: uma excelente conjugação de explicação e entretenimento.

02/01/2016

Recordações da Casa Amarela

1989, João César Monteiro


Obra-prima. João César Monteiro em todo o seu esplendor: obsessivo, divertido, sarcástico, perigoso, intenso e alucinado.

Mostra-nos uma Lisboa tonta, decadente e estonteante entre a casa dos bicos e o panóptico do hospital Miguel Bombarda.  João de Deus é um corpo decadente como a cidade, como o país, como o bairro. Adorei! Adorei! Adorei!


João César Monteiro - Os primeiros filmes

João César Monteiro

Lusomundo
Editado com a colaboração especial da Cinemateca portuguesa - museu do cinema


Sophia de Mello Breyner Andresen, 1970
Muito mar num documento surpreendente. Sente-se o círculo pequeno e o meio onde vivia a escritora, dedicação aos filhos, entre eles um jovem Miguel Sousa Tavares, praia e conversas sobre escrita e poesia.



Quem espera por sapatos do defunto morre descalço, 1970-71
Lisboa como foi. Procurar os mortos para penhorar sapatos. O início do fascínio de João César Monteiro pelos pelintras e trapaceiros. A primeira aparição de Luís Miguel Cintra.



Fragmentos de um filmes esmola 1972-77
Não sai do quarto, mete máscara de porco e ataca o sogro quando se passa. Uma gentil loucura que todos temos, levada ao extremo.



Que farei eu com esta espada? 1975
Marinheiros no Cais do Sodré. Quem o viu e quem o vê. Soldados dos Estados Unidos e Holandeses no Castelo e na baixa que não sabem nada sobre nada. Meninas de discurso profundo.


09/12/2015

Montanha

João Salaviza, 2015
Com Carloto Cotta, David Mourato, Maria João Pinho, Rodrigo Perdigão

O adolescente. Aquele corpo à procura do seu lugar no mundo. Solitário, aventuroso, triste e perdido. Preso no presente. Os Olivais, com a sua enorme piscina em construção, qual metáfora para a profundidade e medo que sentimos na adolescência. Os caminhos de choque familiares. Amor desorientado e belo.


What we do in the shadows

Jemaine Clement, Taika Waititi, 2014

Desde a minha infância que não me recordo de acabar de ver um filme e ficar com tamanha vontade de o rever vezes  sem conta. Viago é adorável. As amizade e interacções entre este grupo de amigos, eternamente jovens, foram delicadamente construidas. Hilariante e genial.

08/12/2015

Primavera Sound, 2015


Junho 2015, Parque da Cidade do Porto

Banda do Mar - Cápsula perfeita do bem-estar e agradável sabor que o Primavera deixa em nós.

Jungle - Altamente antecipado e com razão. Superou as mais altas expectativas. Intenso, poderoso, épico. O melhor e mais enérgico do festival.

Anthony and the Johnsons - Voz genialmente delicada e tresloucada mas tragicamente deslocada deste palco principal. A Baca. Por mais delicada a voz e pensado o espectáculo, nada funcionou. Talvez o pior do Primavera.

FKA Twigs - Gostei de vários. Brilhantes 'moves'. Na altura reportei: "A FKA twigs acabou de imitar vários dos moves que utilizo na discoteca".

Patti Smith - Se calhar escolhia Patti Smith. Foi bué da fixe. Tem a ver com a probabilidade de voltar a ver. Estou a por vários factores na escolha. Uma mulher maior que as suas décadas, que de alguma forma conserva e expande tanta intensidade acumulada.

Marc di Marco - Cool, relaxado, quente. Perfeito espelho do que aquece a alma no espírito do Primavera.

22/11/2015

As mil e uma noites, Volume I, II e III

Miguel Gomes, 2015
Com Crista Alfaiate, Rogério Samora, Diogo Dória, Chico Chapas, Luísa Cruz

Volume I O Inquieto
Meio sonho meio reportagem. Escape exorcizante dos quatro duros anos do resgate. Aliviamo-nos com a colmeia de vespas a arder, torçemos para que o galo não passe a cabidela, votamos nele. Bebemos chá com quem conta a sua história, procuramos salvação dentro de uma baleia ou no mar feio de Janeiro. Pobre Troika.

Volume 2 O desolado
O Manuel Palito só e sonhador, ajudado pelo homem da pastelaria, apanhado em casa, deliciado. Gosto, não sei porquê. Depois começo confuso mas sou  esclarecido na longa cena do julgamento, que tão bem retrata Portugal. Não percebo bem o cão, embora pudesse ter resultado a ideia de o casal jovem cruzar-se com si próprio daqui a 40 anos.

Volume 3 O encantado
A história dos tentilhões é absolutamente extraordinária, está bem contada e fotografada, mas este episódio não casa com a trilogia que acaba por se desfazer num castelo de cartas, resultando numa amálgama colorida e inquietante de histórias fantásticas. Preguiça ou falta de disciplina na edição, pareceu-me.

O Inverno do nosso descontentamento

John Steinbeck
Livros do Brasil
1962 -2006

Carregado de simbolismo tráfico. A corrupção e ganância geral corrompem lentamente a bondade e dignidade de Ethan. Pouco terá mudado?


p. 24 Uma manhã inteira não é uma coisa, mas muitas. Muda não só em intensidade de luz, crescente primeiro, para declinar depois, mas em textura, em humor, em tom e em matizes, deformada pelos mil pormenores de uma estação, o calor ou o frio, a calmaria ou os diversos ventos, diferindo nos cheiros, nas construções feitas pelo gelo ou pela erva, nos rebentos, nas folhas ou nos ramos secos e nus. E como o dia muda assim mudam também os seus actores: insectos, pássaros, gatos, cães, borboletas e pessoas.

O dia tranquilo e interior de Ethan Allen Hawley acabara. O homem que varria o passeio com gestos de metrónomo não era o mesmo que podia falar aos alimentos em conserva. Já não era o unimus unimorum. Amontoava as pontas de cigarros, os papéis dos bombons, as folhas das árvores e o vulgar pó, para depois empurrar tudo para a valeta, onde ficaria à espera do pessoal da limpeza e do seu camião.

p 65 Uma fortuna imaginária tem tanto valor como qualquer outra, até porque todas elas o são mais ou menos.

113 Por hábito, sempre deixei para amanhã o tomar uma decisão. Então, quando um dia disponho de tempo suficiente para estudar o problema, encontro-o já completo, resolvido.

p 114 Um dia em que, sentado junto ao leito, eu velava o doente, um monstro surgiu da minha água negra. Fui tomado do desejo de matar Dennis, de o degolar com os dentes. Os músculos das minhas mandíbulas contraíram-se e senti os lábios arrepiarem-se como os de um lobo prestes  a matar.
Quando tudo acabou, angustiado e com sentimento de culpa, confessei-me ao médico que assinou a certidão de óbito.
- Qual é a causa? Eu gostava dele.
- Uma reminiscência ancestral, talvez. Um retorno à época em que um ferido ou um doente eram um perigo para a tribo. Certos animais e a maior parte dos peixes dilaceram e devoram um irmão enfraquecido.

131 Pobre, ela é invejosa. Rica, será desprezível. O dinheiro não cura a doença. Só modifica os sintomas.

184 Possuo cinco bons fatos. Uma quantidade apreciável para um caixeiro de mercearia. Acariciava-os com os dedos. Chamava-lhes Old Blue, Sweet George Brann, Dorian Grey, Burning Black e Dobbin.

190 Nos negócios, como na política deve-se abrir caminho a golpes de machado. Uma vez triunfante, pode-se ser magnânimo e amável .., mas primeiro é preciso atingir o objectivo.

199 As comunidades, tal como os homens, têm os seus períodos de saúde e de doença, de juventude e de velhice, de esperança e de desalento.

202 Ode a Junho.

229 As pessoas que dizem não ter tempo para pensar surpreendem-me. Pela minha parte, posso pensar em duas coisas ao mesmo tempo. Pesar legumes, falar da chuva e do bom tempo com os fregueses, discutir com a Mary ou amá-la, zangar-me com as crianças. Não ter tempo de pensar deve equivaler a não ter vontade de pensar.

230 Poder e sucesso estão acima da moralidade e da crítica. O único castigo é o insucesso.