25/12/2014

Afonso D. Keynes Henriques

Orçamento Estado 1179 ?

"Eu, Afonso, rei dos Portugueses, considerando a minha morte e o dia do severo juízo, quando cada um será retribuído segundo as suas boas ou más acções (...), tendo ponderado diligentemente, decidi dispor de certa parte da minha fortuna, isto é, de 22.000 maravedis que tenho depositados no Mosteiro de Santa Cruz e reparti-los em benefício da minha alma depois da minha morte da forma seguinte: primeiramente à Ordem do Hospital de Jerusalém, 8.000 mosmodis (...). Para a obra de de Santa Maria de Lisboa, 1.000 maravedis. Para a obra de Alcobaça, 500 maravedis. Para a obra da igreja de Évora, 500 maravedis. Para a obra de Coimbra, 500 maravedis. Para a obra do Porto, 500 maravedis. Para a obra de Braga, 500 maravedis. Para a obra de Viseu, 500 maravedis. (...) E dei já ao abade e frades de S. João de Tarouca 3.000 maravedis, que mando sejam destinados à ponte sobre o Douro. (...) Já dei ao mestre de Évora, Gonçalo Viegas, 10.000 maravedis para serem gastos em utilidade e defesa desta cidade quando for necessário. E deixo aos pobres que existem no bispado de Lisboa 1.000 maravedis; aos pobres que vivem em Santarém, Coruche, Abrantes, Tomar, Torres Novas, Ourém, Leiria e Pombal, 1.000 maravedis (...). Ao hospital novo de Guimarães, ao de Santarém e ao de Lisboa, 260 maravedis."

p. 73 e 74 "História Concisa de Portugal" José Hermano Saraiva

26/10/2014

Os homens que odeiam as mulheres

Stieg Larsson, 2005, 18ª edição - 2013 - pela Oceanos, do Grupo Leya

Este não é um policial de crime quarto fechado, é de ilha mais ou menos fechada. Stieg Larsson desenha e desenrola o mistério com classe e ritmo extremo. Um thriller-mistério, também crítica da violência sobre as mulheres e com um laivo da sua costela de académico especialista em movimentos de extrema direita na Europa. Irritou-me Blomkvist ter ido sozinho atrás do senhor suspeito depois de andar a levar tiros de caçadeira. Gostei da Austrália, dos muitos cafés em casa das pessoas e da investigação pelas fotografias.

Film, David Fincher, 2011
Com Daniel Craig, Rooney Mara
Parece que a parte final foi alterada, simplificada e logo uma das partes sobre a qual eu tinha, visualmente, mais interesse. Nem um cheirinho de Austrália. Gosto do trabalho de Rooney Mara mas Lisbeth é menos gira do que eu a imaginava apesar de, no livro, terem dito que não era bonita. O livro é melhor.

Built on glass

Chet Faker, 2014, Future Classic, Imagem
Direcção arte Tin&Ed

Deixa a mente correr lenta e ritmadamente por aí. Um branco ligeiramente acizentado, tendencialmente puro e limpo como quero a minha vida.
R&B e electrónica, um 'spin-off' de Chet Baker que canta sobre o sentimento de um Domingo preguiçoso? Sim, por favor.
Saxofone e electrónica, uma voz de constante, calma despedida. Serenidade.



I am sitting in a room different from the one you are in now

João Fiadeiro, 3 de Outubro de 2014, Atelier Real
Baseado em trabalho sonoro de Alvin Lucier

Catártico e inesperadamente fácil de gostar. Este mundo da composição em tempo real é mais fácil de viver que de explicar. Uma cadeira, uma fotocopiadora Canon, e bastante fita cola. O João, a sua voz em busca de si, vai-se desdobrando, experimentando versões até desaparecer numa pré-anunciada prisão de papel.

10/10/2014

Futebol Muji

Um japonês, com um caderno da Muji, desenhou jogadas do jogo em pequenos rectângulos invadidos por setas com o movimento dos jogadores. Outro homem, forte no elevador, tem uma mochila com uma grande antena e, ao descermos, ouve-se a rádio baixinho. Adeptos entram a meio da viagem, malcheirosos e bem dispostos.

Antes da conferência de imprensa ouve-se o leve bater das teclas e  murmúrios. Todos os olhos focam no 'steward' quando vem à porta. À entrada, estava a barriguinha do Dani e uns sapatos castanhos impecáveis.

Uma estagiária, inchada e perdida, move-se rápida e nervosamente. Olha em volta, desconfiada. Um relógio de parede branco, descentrado, torto, encosta o seu plástico pouco convictamente, olhando invejosamente a perfeita simetria de cores e logos dos patrocinadores: Heineken, Unicredit, TVI, PS4, Gazprom, Mastercard, Adidas. Foto 537.

"Now we can control our destiny" - José Mourinho

Sporting 0 v 1 Chelsea veludo
Nemanja Matic: cabeçeamento-balão
30 Set

OK computer

Radiohead, 1997, Parlophone

'Hey man slow down. Idiot slow down'.

Um dos álbums com o qual tive das maiores sensações de crescer na limitada habilidade de compreender toda a irracional complexidade à nossa volta.

Sublime crítica da ascenção da sociedade consumista, consumada e impessoal desde o final dos anos 90.

"The breath of the morning I keep forgetting. The smell of the warm summer air. I live in a town where you can't smell a thing, you watch your feet for cracks in the pavement"

"Up above aliens hover making home movies for the folks back home, of all these weird creatures who lock up their spirits, drill holes in themselves and live for their secrets".

www.radiohead.com "This is our website which we maintain as and when we feel like it. We hope you are ok. Thank you for listening."




29/09/2014

Yes

1995, Morphine, Mark Sandman

Suspiros saudosos e melancólicos de um saxofone à noite, à saída de um bar. Ou será talvez à entrada?
Uma das fotos no álbum é de uma asa de avião sobre um sol vermelho e nublado, em jeito de despedida deste mundo. Essa voz de Sandman assim se despediu, demasiado cedo. 'Gone for good': coisa mais triste; 'Honey White': coisa mais alegre.

28/09/2014

Arquitecturas Film Festival, 28 Setembro 2014

Sacred
Nuno Grande, 2014
Sublime banda sonora e steadicam desta curta-documentário.
Valioso arquivo do igreja do Sagrado coração de Jesus em Lisboa.

A Radiant Life
Meryil Hardt, 2013
Início satisfatório mas descamba para o desastre e aborrecimento. A Marselha de Le Corbusier, a apropriação e dificuldades dos habitantes da visão dele, mereciam mais.

The practice of architecture: visiting Peter Zumthor
Michael Blackwood, 2012
Um pouco feito às três pancadas, Kenneth Frampton abre a porta de casa do intenso e genial Zumthor, abrindo uma janela sobre a sua personalidade e método de trabalho. Os detalhes e preciosismos dos seus projectos mereciam imagens melhores e menos 3ds a retratar locais que já existem de pedra e cal.

Concerto Inaugural Temporada 2014 - 2015 Teatro Nacional de São Carlos

Maestrina Joana Carneiro, com violoncelista Johannes Moser
Orquestra Sinfónica Portuguesa
Coro do Teatro Nacional de São Carlos

20 Setembro de 2014

Poder absoluto. Arrepiante, intenso e inesquecível. ªUm corpo mágico de músicos para um espaço igualmente mágico, cheio de vida até ao mais alto camarote. A maestrina impõe respeito absoluto com a mais extrema das graciosidades. O violoncelista brilha tanto como os seus sapatos, sorri, mexe, sua, quase que grita. Danse générale de Maurice Ravel foi o clímax perfeito.

'Olá Mariana, estive a ler o 'booklet', e tal como eu te disse durante o concerto inaugural, o violoncelo de Johannes Moser era mesmo um Andrea Guarneri, de 1694'
'Deveras impressionada Daniel, não sei como o distinguiste àquela distância de um Giuseppe Giovanni Battista Guarneri'

Antonin Dvorak: Concerto para violoncelo e orquestra em si menor, op. 104 Allegro; Adagio ma non troppo; Finale

Luís de Freitas Branco: Antero de Quental Poema sinfónico para orquestra

Maurice Ravel: Daphnis et Chloé suite no. 2 para coro e orquestra: Lever du jour; Pantomine; Danse générale.

Alice

2005, Marco Martins, com Nuno Lopes
Edição especial - 2 discos, Lusomundo audiovisuais

A história é sobre Lisboa. Uma Lisboa que não é nova mas aparece pouco. É azul apagado, triste e solitário, na multidão. Um azul, mesmo assim estonteante, tal como o casaco de Alice.

Tal como a massa que entra e sai dos corações de Lisboa. Que se movimenta roboticamente, compassadamente, dia após dia. Cativante e dolorosamente apagada. Não tão diferente de Mário.

07/09/2014

Good Ol' Freda

Ryan White, 2013

Histório-documentário, simples e bem montada. Freda faz um excelente trabalho de jornalista, lembrando-se de pormenores incríveis. Uma contadora de histórias exímia, improvável testemunha da ascenção e queda da Beatlemania. Permite um olhar por dentro do círculo mais restrito dos Beatles, da sua logística, suas personalidades e também do papel fundamental dos 'managers', particularmente de Brian Epstein, e do antes e depois da sua morte.

Crónica de uma morte anunciada

Gabriel García Márquez 1981 (original)

Mais que contar uma história, Márquez conta um ambiente. A aldeia parece ser uma caricatura da nossa frequente hipocrisia colectiva, não sei se esta é uma interpretação válida. Sei que o brilho das facas de matar porcos assusta e que fiquei sem perceber quem desflorou indevidamente a noiva, causando a bagunça.

Romance de uma conspiração

João Paulo Guerra, 2010, Oficina do Livro

Ligeirinho mas informativo. Pedro Costa não conquista por exomplexo mas ganha a nossa simpatia como testemunha tímida mas corajosa do Verão quente e dos últimos anos da ditadura. A forma como tudo se une no final é improvável mas bom, é ficção. A Lisboa dele, a dos gatos, fica ao cima da minha rua.

A sombra do vento

Carlos Ruiz Zafón, Dom Quixote, 2004-2006

Brilhante desenvolvimento de personagens, especialmente de Julián Carax. As personagens e o mistério do puzzle vai sendo contado, desvendado do ponto de vista dos vários intervenientes num mistério passado e presente. Esta Barcelona mistura as distintas trevas de Fumero e Carax com a alegria e intensidade de Daniel e Fermín. Intrigante até ao fim.

96 "A televisão, amigo Daniel, é o Anticristo, e digo-lhe que bastarão três ou quatro gerações para que as pessoas não saibam nem dar peidos por sua conta e o ser humano regresse às cavernas, à barbárie medieval e a estados de imbecilidade que a lesma já ultrapassou lá para o pleistoceno. Este mundo não morrerá de uma bomba atómica, como dizem os jornais, morrerá de riso, de banalidade, fazendo uma piada de tudo, e aliás uma piada sem graça."

169 "O dinheiro é como qualquer outro vírus: uma vez podre a alma que o alberga, parte à procura de sangue fresco. Neste mundo, um apelido dura menos do que uma amêndoa coberta"

192 "Odestino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotarias: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele."

221 "Às vezes Jacinta perguntava a si mesma se aquela paz sonolenta que devorava os seus dias, aquela noite da consciência, seria aquilo a que alguns chamavam felicidade.

05/09/2014

Cemitério de pianos

José Luís Peixoto, Bertrand 2006-2007

Todo o início começa num fim e nesta família Escher, que partilhei em cópia dupla na praia, um diagrama abre a porta ao circular da vida, seus constantes desgostos e raros momentos de paz de corridas e no meio do cemitério de pianos. Excelente inspiração em Francisco Lázaro.

283 "O tempo passava. E tinha a certeza de que uma parte de mim, como peças de pianos mortos, continuaria a funcionar dentro deles (...) éramos perpétuos uns nos outros."